sexta-feira, 16 de junho de 2017

VIDAS: Caetano Tomás São Pedro

Uma das (últimas) figuras populares de Nisa
É um homem de expressão fácil e olhar atento, nos seus 86 anos de uma vida cheia de mil episódios e peripécias. No relato que nos fez, de algumas dessas "passagens da vida", há sempre um motivo hilariante, alegre, divertido, a rematar e a concluir de forma prazenteira, o capítulo da conversa.
Caros leitores, fiquem com Caetano Tomás S. Pedro, uma das figuras populares de Nisa e vejam, por ele  mesmo que, face às desgraças que por aí vão, rir (ainda) é o melhor remédio...
Este homem, se tem sido aproveitado, dava um actor de primeira água. Os tiques, as expressões, os gestos, repentinos, ou as respostas desconcertantes, fizeram dele uma das figuras típicas e populares mais conhecidas de Nisa.
De origem modesta, não menos modesta e humilde tem sido a sua vida de mais de oitenta anos. Simples, sim, mas sem perder o sentido da alegria e do divertimento.
Caetano Tomás S. Pedro foi aprendiz de sapateiro, padeiro, pintor, caiador, homem de mil ofícios, malabarista das palavras, humorista nas horas vagas e sempre que a oportunidade se lhe deparou. Apesar da idade avançada, mantém um sorriso permanente, aberto e malandro,de orelha a orelha, a que junta um olhar vivo, penetrante, que o coloca em alerta e pronto para a resposta ou para um trejeito humorístico capaz de fazer rir as pedras da calçada.
A princípio, receoso e desconfiado, começou por declinar a conversa. Mas, espicaçado nos seus brios, para alguns dos episódios por si vividos  e intencionalmente, desvirtuados, logo ripostou deitando fora as hesitações iniciais, numa conversa de mais de duas horas, em que sintetizou o "filme " da sua vida.
A “Praça” lugar de nascimento
"Nasci na Praça, numa casa onde está hoje a Fonte do Frade. Andei à escola até à quarta classe, na escola do Rossio, mas não cheguei a fazer o exame. O professor era o senhor José Dinis Paralta e no dia do exame, não me agradou aquilo e vim-me embora. Saltei pela janela e, oh! patas!..."
Esta é uma das muitas peripécias que Caetano Tomás recorda. Já sem o ouvido e o olhar arguto de outrora, refugia-se na falta de audição para fugir a alguma pergunta mais incómoda para, logo que a oportunidade aparece, se apressar a dizer que "só não ouve o que não lhe agrada". De idade avançada, a memória já lhe vai pregando algumas partidas. Ainda assim lembra-se de ter andado como aprendiz de sapateiro na oficina do ti Lourenço Pação, na rua Direita, a dois passos da casa onde nasceu. Por pouco tempo. O estar sentado, o dia inteiro, entre solas e sapatos não ligava muito com o seu feitio, mais virado para o ar livre e por isso, a etapa seguinte levou-o até à fábrica do pão, na Devesa.
"Trabalhei na fábrica do senhor Ribeirinho uns quatro anos. Ia com uma carroça vender o pão a Alpalhão, Pé da Serra, Arez, Velada, Amieira. Numa carroça com um macho branco, lembro-me bem. Andei a vender pão cá em Nisa com um carrinho, mais o pai do senhor Corrente, o Papo-seco sem pão. Levámos o pão à senhora Isabel da Fábrica e à senhora Etelvina do José Januário. O carrinho levava 90 ou 100 pães, de quilo, que era obrigatório. Custava um bocado a esta fraca figura, empurrar o carro pelas ruas cheias de buracos. De modo que eu guardava sempre dois papo-secos do dia anterior e partia-os aos bocados e dava-os à gaitagem que em troca ajudava a empurrar o carro.  Nunca faltavam ajudas."
Depois da experiência como ajudante de padeiro, Caetano S. Pedro decidiu dar novo rumo à sua vida e criar o seu próprio emprego.
"Com a experiência que tinha adquirido, não é verdade, estabeleci-me por conta própria e criei a minha própria firma de pinturas e caiações."
Considera-se pioneiro neste género de trabalho em Nisa e no concelho. Nesta arte trabalhou com o ti Manuel Bólinhas e o ti Manel do Benfica, para além do próprio filho.
Tudo isto, numa época em que um novo trabalho artístico fazia a sua aparição: a publicidade nas paredes. Os cartazes, anunciando produtos alimentares, de limpeza para o lar, automóveis e outros, despertaram a curiosidade da "firma familiar" de Caetano S. Pedro e de um momento para o outro converteu-se em "agente publicitário". Tudo feito a rigor, como tem o cuidado de reforçar.
"Os cartazes vinham do Porto e de Lisboa, especialmente dirigidos ao Caetano Tomás S. Pedro, ou seja, a minha pessoa. Não se pense que se ganhava alguma coisa de jeito. Não senhor. Os cartazes vinham em rolos de 20 ou 30, tínhamos que colá-los segundo o desenho que os rolos traziam e em sítios certos, pois não podiam ser colados em qualquer sítio. Era uma tarefa  que fazíamos quase sempre à noite, depois do trabalho e o que se ganhava dava para beber uns copos. Só recebíamos depois de mandarmos uma carta a dizer quantos tínhamos colado e em que locais."
Não havia televisão e era a publicidade, afixada, na parede, a maior forma de divulgação de produtos de grande consumo e foi esse trabalho, assim como as pinturas e caiações que fizeram de Caetano S. Pedro uma das pessoas mais conhecidas e carismáticas de todo o concelho de Nisa.
Os fiscais das farinhas
Numa época difícil, deitou mão às tarefas e ocupações que lhe podiam garantir algum dinheiro para o sustento dos três filhos.
"Cheguei a ir ao Pé da Serra com um pneu às costas, para ganhar 25 tostões. Era um tempo custoso, mas cá o Caetano desenrascava-se sempre. Um dia ia trabalhar para as pinturas em Arez e quando cheguei à Porta da Vila estava lá o senhor Joaquim Polícia e diz para mim: "mostra-me lá a licença da bicicleta!". Como não a mostrei, não a tinha, disse-me que "não abalas daqui sem tirares a licença". Ficou-me com a bicicleta e tive que ir à Câmara tirar a licença que custava 10$50, mais do que eu ganhava por dia. Só depois é que me deixou abalar para Arez, onde cheguei quase às 11 horas".
Nota-se-lhe que não tem boas recordações da autoridade, pelo menos de alguns elementos que serviram nesse tempo.
"Uma vez vinha da taberna do ti Raposinho, vinha a cantar - eu sempre gostei muito de cantar - apareceu a Guarda e levou-me para o posto. Passei lá a noite. Dantes a  Guarda castigava muito o pessoal de trabalho. Eram mandados..."
Uma das peripécias mais conhecidas e protagonizada pelo nosso entrevistado passou-se no Pé da Serra, quando este e um amigo resolveram fazer-se passar por fiscais dos vinhos. A rir, o senhor Caetano não resiste a contar o episódio.
"Eu e o José Quintino ( o Pelota) fomos ao Pé da Serra "armados" em fiscais de vinhos. Vestidos com camisa de meia manga, azul, calça de cotim, também azul, feitas pelo Manuel Caxamela, ninguém era capaz de dizer que não éramos fiscais. O Pelota levava uma pasta que era do senhor Aníbal Vieira para fazer melhor o papel de fiscal. Chegámos à taberna do Reizinho (primo da minha mulher) e ele não estava. Apresentámo-nos como fiscais, comemos e bebemos, um pão de trigo e um queijo mole, estava tudo a correr pelo melhor e nisto chega o dono do estabelecimento. Bem, é melhor não contar mais... Tivemos que bater a "butes", corridos à pedrada, do Pé da Serra para Nisa. Não sei em quanto tempo fizemos o caminho..."
Muitos outros episódios, hilariantes, tem para contar. Um há, especial, em que a "vítima" foi a própria mãe e que considera tratar-se, apenas, de uma brincadeira.
Caetano S. Pedro era, nessa altura, um jovem e a quem algum dinheirito fazia sempre jeito, para o tabaquito. Um dia, como a mãe não se dispusesse a dar-lhe algum dinheiro - se calhar, não tinha - mostrou-lhe um papel, que ele mesmo assinara, dizendo-lhe que era  uma multa, por ter deitado água para a rua. A mãe, coitada, não teve outro remédio senão arranjar-lhe o dinheiro que antes lhe tinha negado.
Quebrado o gelo inicial, a conversa toma o caminho das festas populares, dos bailes, dos divertimentos e do tempo da juventude. Caetano S. Pedro eleva-se na cadeira, faz apelo à memória e dita para o papel, entusiasmado, quadras populares que eram cantadas e bailadas ao som do harmónio ou das castanholas. Aqui registamos algumas:
Eu um dia para te ver
Dava voltinhas à rua
Hoje já dou dinheiro
Para não ver tal figura

Ó laranja e tangerina
Eu de ti desejava um gomo
Tua mãe está julgando
Qu´eu com a boca te como.

Não te encostes à parreira
Que a parreira deita pó
Encosta-te à minha cama
Estou sozinho, durmo só.

Chamastes ao meu bigode
O poleiro dos passarinhos
Eu chamei às tuas faces
O cofre dos meus beijinhos.

Vai de carta, vai de carta
Meu raminho d´oliveira
Desculpa ir mal escrita
De amores é a primeira.

Ó minha Santa Maria
Ó minha Maria Santa
Tua casa tens no monte
Onde o passarinho canta.

O passarinho quando canta
A sua linda canção
Traz rouxinóis na garganta
E guitarradas no coração.

Ó triste da minha vida
Ó triste do meu viver
Para que quero eu a vida
Eu não sirvo para morrer.
Mário Mendes in “Jornal de Nisa” nº 253 - 2008 

quinta-feira, 8 de junho de 2017

GENTE DE ALPALHÃO: Henrique Fortunato

"A minha vida dava um filme"
Jogou à bola, lembra os jogos entre Nisa e Alpalhão e as antigas rivalidades entre as duas vilas do concelho. Os bons ou maus momentos futebolísticos do "seu" Sporting dá-lhe pano para mangas para as conversas com os clientes, entre o vai e vem do pente e da tesoura. No corte da barba, é melhor esse tipo de conversas ficar de fora, "não vá o diabo tecê-las". É a gente a falar. Barbeiro há 56 anos, conversador nato e com uma risada a terminar cada frase, é assim Henrique Martins Fortunato, um homem pacífico e uma das figuras populares de Alpalhão. Com um sorriso de orelha a orelha, contou-nos um pouco da sua vida e profissão.
"Não tenho muito para contar, ou, então, se fosse a contar todas as peripécias da minha vida, dava para fazer um grande filme. Sou barbeiro há 56 anos e estou aqui nesta casa desde 1955, há 50 anos. A taberna abriu um pouco mais tarde, há 43 anos, tem sido esta a minha vida, vai dando para me governar".
Dado o mote para a conversa, Henrique Fortunato conta-nos como foi o começo da sua actividade como barbeiro.
"Aprendi a arte de barbeiro com o ti Fernando Bate-Certo e tinha que bater certo, não é verdade? Comecei a aprender com 13 anos e assim andei até ir tirar sortes, sem ganhar um tostão. Depois de acabada a tropa é que abri o estabelecimento aqui na rua do Castelo."
Clientela é coisa que parece não faltar a este barbeiro alpalhoense, que nos diz ter muitos clientes que "vêm de Nisa, Tolosa, Gáfete, Alagoa, Castelo de Vide, Póvoa e Meadas e até de Portalegre, sem contar com as pessoas de Alpalhão".
São clientes de muitos anos, "a maioria com mais de 40 anos de idade, mas também aparecem alguns jovens, porque há poucos barbeiros".
Henrique Fortunato diz gostar da sua profissão e daquilo que faz. Já foi presidente da Junta de Freguesia, mas durante pouco tempo.
"É um cargo que só dá chatices e eu não tinha feitio para me indispôr com ninguém. Assim resolvi pedir a demissão e dedicar-me àquilo que tenho feito sempre. Sempre gostei disto e de aprender, quando vou a algum lado reparo sempre como fazem as coisas. Numa ocasião, em Lisboa, vi uma senhora a cortar cabelo e que bem que ela cortava. Desde que se aprenda e queira fazer as coisas com perfeição, é uma profissão como outra qualquer. Só não percebo porque é que há cada vez menos gente a querer ser barbeiro".
Para além da barbearia e do atendimento na taberna, Henrique Fortunato tem outras "ocupações", uma delas, a da caça, que já não pratica com a intensidade de outros tempos.
"Fui caçador durante muitos anos. Agora, as pernas já não puxam muito. Sou o sócio mais velho da reserva de Alpalhão. Sempre gostei de actividade física, para além do futebol, gostava muito de jogar chinquilho".
Sportinguista dos quatro costados, o futebol é tema recorrente de muitas conversas, seja a nível nacional ou no plano local.
"Foi uma pena acabarem com o futebol em Alpalhão. As pessoas daqui gostam muito de desporto. Noutros tempos não "havia pai" para o ciclismo e tínhamos aí bons corredores. Aos domingos o povo gostava de ir ver a bola, divertíamo-nos um bocadinho e o Alpalhão chegou a estar na 3ª divisão. Agora parece que há aí uma malta que vai pôr o futebol outra vez em funcionamento".
Henrique não é só adepto do futebol. Foi jogador e não esquece os jogos intensos, vibrantes, nas décadas de 50 e 60. Com um sorriso rasgado, põe a memória a viajar e lembra a rivalidade com os vizinhos de Nisa.
"Eram grandes jogos, com muita gente a assistir. Jogava-se por amor à camisola, não havia prémios de jogo nem nada disso. Ainda joguei contra o Fatan. Uma vez estávamos a ganhar 2 - 0 e fomos perder 2 - 8. Joguei também contra o Vilela e lembro-me bem, o Vilela não me ganhava uma bola".
Recordações de quem deixou para trás mais de cinquenta anos entre barbas e cabelos, pentes e tesouras, sucessos e desilusões do "seu" Sporting e que agora só pensa em manter a saúde, sem dúvida a maior riqueza para um Henrique que, para além de barbeiro, tem uma Fortuna(to). Apenas no nome e na alegria que espalha, tá bom de ver.
Mário Mendes in “Jornal de Nisa” – Março de 2008

quinta-feira, 30 de março de 2017

NISA: À Descoberta do Património do concelho (1)

Percursos Pedestres: um Guia por completar!
A edição de uma qualquer obra literária ou simples manuscrito, é sempre uma acção positiva e de louvar se a finalidade for preservar, oferecer ao presente e legar ao futuro algo com interesse para o concelho de Nisa ou seus habitantes.
Um bom exemplo é toda aquela vasta e valiosa colectânea literária exposta na Biblioteca Municipal, cerca de trinta títulos, quase todos eles de autoria de nisenses e que têm em comum, nos variados temas abordados, fruto de vivências, muito trabalho e experiência adquirida, a necessidade sentida de transmitir e partilhar o saber herdado.
Mas, também, nesta temática, há que ter cuidado, iniciada uma qualquer “caminhada” há que seguir em frente e terminá-la, retroceder ou parar pode não ser bom, inadequado, injusto até.
Uma edição verdadeiramente interessante e bem útil foi o “Guia de Percursos Pedestres” de Nisa, promovida pelo actual executivo camarário, vão quase cinco anos (2005).Mas, e não poucas vezes há sempre um “mas”, se nada há a opor no aspecto gráfico, já no conteúdo informativo nos parece haver falta de moderação, que vai sendo um vício por todo o lado, mas pior, bem pior, são as omissões ao quão de importante temos por ali, no espaço já contemplado pelos “Guias”, que nada ajudam o “turismo” que se vai invocando quase diariamente. Descuido? Outra razão? Ultrapassa-nos. Direitos de autor por certo não lhes seriam exigidos.
Não é correcto, por injusto, deixar o trabalho a meio, com as consequências negativas que daí advêm, divulgando uma fracção apenas do todo que é o concelho de Nisa. Cinco anos volvidos é tempo de completar a “caminhada”, promovendo a edição dos documentos ainda em falta, referenciando todo o valioso património ocultado.
Observe o leitor um qualquer mapa do concelho de Nisa e experimente traçar uma linha ligando o Percurso nº 1 (Trilhos de Jans – Amieira do Tejo) ao Percurso nº8 ( Trilhos do Moinho Branco – Montalvão).
Por certo vai constatar o seguinte: naquele espaço, a Norte, estão lá todos os “Percursos” editados (8), nada havendo que contemplar a Sul, espaço mais amplo, divulgando o valioso património existente e visível por aí.
As freguesias do Espírito Santo, Nossa Senhora da Graça, Arez, S. Matias, Tolosa e Alpalhão, têm um acervo patrimonial e paisagístico de grande importância, onde se vêem em quantidade, igrejas e ermidas, passadeiras nos ribeiros e também moinhos, pontes e fontes, furdões e barragens, antas, menires, sepulturas nas rochas e vias muito, muito antigas, de antes da nacionalidade portuguesa.
Vias por onde transitaram e transitam ainda tantos povos nossos parentes, fossem eles lusitanos, romanos ou sarracenos, peregrinos em romagem ou simples caminhantes de agora.
Bem, depois há a história dos sítios, das vilas e das aldeias, que não consta lá e é riquíssima, como é até mesmo aquelas que lá constam, nos Percursos já editados.
Mãos à obra, termine-se a “caminhada” iniciada, dando a todas as freguesias do concelho, sobre a forma de “Percursos”, a importância patrimonial e histórica que, efectivamente, têm.
Mais do que uma necessidade é um acto de justiça.
João Francisco Lopes in "O Distrito de Portalegre" (2009)

sábado, 7 de janeiro de 2017

MEMÓRIA HISTÓRICA: A crise de trabalho no concelho de Nisa em 1913

Menos de três anos após a implantação da República em Portugal, as precárias condições de vida da população portuguesa, mantinham-se e o novo regime político enfrentava uma grande convulsão social, motivada, principalmente, pela falta de trabalho.
No concelho de Nisa, a situação não era diferente da que vigorava no país. Em 1913, a crise geral, agravada com o mau ano agrícola, motivou uma exposição (na altura designada por Representação) ao Governo da República, feita através do Governo Civil. É esse documento que aqui apresentamos e deixamos à consideração dos nossos leitores/visitantes do blog.
Representação da C.A. do Município de Niza ao Governo da República (Agosto de 1913)
A Comissão Administrativa do Município de Niza, vem perante Vossa Excelência representar pedindo para que consiga do Governo da Republica a imediata abertura de trabalhos públicos que, de algum modo conjurar possam a angustiosa crise em que o operariado d´este concelho se debate.
O terrível anno que vai correndo, tem sido sob o ponto de vista agrícola, verdadeiramente calamitoso. Quando a poeira do tempo tiver embranquecido as cabeças dos rapazes d´hoje, hão de eles recordar este fatídico 1913, como um pesadelo que lhes vincou na alma uma inolvidável amargura.
As searas apresentavam-se magnificas e assim se conservavam até que, os últimos dias de Maio, um fungo puccinia rubigo-vera as devastou.

Havia ainda a cultura do linho. Uma ultima  esperança bruxeliava! Talvez, talvez que uma pequena compensação trouxesse... também falhou! Todos os sonhos de prosperidade ruíram; e os agricultores sem dinheiro, perdida também a energia reduzem ao mínimo o serviço que é costume efectuar. D´ahí a crise de trablaho agravada confrangedoramente pela carestia de vida.
E a semente do sindicalismo que o inverno passado foi lançada nos espíritos rudes dos trabalhadores rurares, la vae germinando, mercê d´esta circunstancia que lhe é imensamente favorável: a miséria.
A Comissão Administrativa da minha presidência comprehende muito bem a impossibilidade de o Estado remediar por completo esta situação. Mas pode atenual-a. E uma das formas de o conseguir, consistirá em abrir trabalhos públicos.
No prosseguimento da construção da estrada do Tejo a Amieira, encontraria muitos braços emprego para a sua actividade, alem de assim, se efectuar obra de incontestável utilidade publica.
Nas mãos de Vossa Excelência, depõe a Comissão Administrativa do Município de Niza, esta representação, na antecipada certeza de que não encontraria quem melhor do que Vossa Excelência faça triumphar a obra da Justiça que n´ela se reclama.
Niza, 21 de Agosto de 1913
O Presidente da Comissão
António Maria de Mattos Cardoso
Nota: Ano de perseguição ao movimento operário
"1913, ano do I Governo de Afonso Costa, alcunhado pelos trabalhadores de “racha-sindicalistas”, foi um ano de perseguições ao movimento operário, como nunca tinha acontecido desde a proclamação da República, em 1910. Em Fevereiro de 1913 estavam presos 110 trabalhadores rurais. Dezenas de sindicatos foram encerrados e mais de uma centena de sindicalistas foram encarcerados no Forte da Graça, em Elvas."
Helena Pato in "Notícias de Almeirim"
Desenho de Cipriano Dourado (1921-1981)

terça-feira, 8 de novembro de 2016

MEMÓRIA: Petição à Câmara de Nisa em 1885

Dos moradores do Monte Cimeiro e do Pé da Serra
Usando da faculdade que a lei conferia, os moradores das aldeias ou povoações mais pequenas, faziam regularmente petições às entidades públicas, reivindicando a resolução de problemas. O arranjo das vias de comunicação é reivindicado nesta petição apresentada à Camara de Nisa em 1885 e que transcrevemos respeitando a ortografia da época:
" Os abaixo assignados moradores no Monte Cimeiro e Pé da Serra, freguezia de S. Simão d´este concelho, usando de um direito que a lei lhes confere, veem hoje representar a V. Exªs sobre a necessidade inaddiavel de se attender de prompto á reparação, na parte indispensavel, de um dos caminhos publicos que ligam aquellas povoações ruraes com a séde do mesmo concelho. É incontestavel que muito, relativamente, se tem feito para que a viação municipal possa satisfazer ao que o commercio, a industria e em summa as forças vivas do municipio, no seu progresso successivo, vão exigindo; mas não é menos incontestavel que não ha presentemente no concelho povoação alguma que esteja em peiores condições de viação do que o monte, aliás importante, do Pé da Serra, porque infelizmente até hoje nenhum beneficio tem recebido n´esse sentido. Bastará dizer que, para uma carreta chegar a este monte, tem que ir alcançar o Azinhal, suppondo que Niza é o ponto de partida, percorrendo assim uma distancia dupla da que teria de percorrer se seguisse pelo caminho chamado do Carqueijal em direcção ao Porto das Carretas.
Acresce ainda que, para a propria viação a pé ou a cavallo, o caminho ordinariamente seguido, o da Ponte em direcção a Portella dos Caldeireiros, está hoje já quasi intransitavel. Para remediar estes males, que são grandes, pois affectam interesses legítimos, os abaixo assignados veem pedir á Exma Camara Municipal a immediata reparação do caminho do Carqueijal, na parte comprehendida entre a Cancella da tapada dos herdeiros de José da Cruz Cebola e o Porto das Carretas, distancia que é pequena, e em seguida a reparação do dito porto, de forma que o seu pavimento seja de calçada e colloquem n´elle as competentes passadeiras.
D´esta arte com uma pequena despeza, o beneficio para o monte do Pé da Serra é tão grande que só em occasiões de grandes cheias será interrompida a viação pelo dito porto, convindo notar que esse beneficio se estende ainda aos habitantes do monte da Salavessa, visto que elles fazem escala pelo Pé da Serra.
Attendendo á justiça que assiste aos abaixo assignados e a que a reparação pedida importa apenas uma pequena despeza, que não se torna sensível na verba aprovvada para tal fim no respectivo orçamento, esperam, e attendendo a que aproveita ainda ao povo da Vinagra, onde residem alguns signatários.
Pedem a V. Exas deferimento."
Á frente dos signatários vinha o nome de João António da Silva, pároco de S. Simão. Nos mais de 30 nomes que integram a petição, muitos dos apelidos são-nos familiares (Corga, Pires, Anastácio), por serem comuns em Nisa, o que torna credível a ideia de que a formação do monte do Pé da Serra, se processou após a destruição de Nisa-a-Velha, sendo os povos de Nisa e daquela localidade, apenas um e o mesmo povo.

in "Jornal de Nisa" - Nº 36 - 23 de Junho de 1999

terça-feira, 1 de novembro de 2016

NISA: Ecos da Nossa História (1)

O descanso semanal em 1930
Em 17 de Maio de 1930, em plena Dictadura Nacional, a Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Nisa, presidida pelo tenente António Falcão e tendo como vogais António Joaquim Fraústo e João da Cruz Carita (Canhoto) aprovava o Regulamento do Descanso Semanal, com as seguintes disposições:
Artº 1º : O descanso semanal no concelho de Nisa será observado nos termos do Dec.de 8 de Março de 1911, nº 5516 de 4 de Março de 1919, 10782 de 20 de Maio de 1925, 13788 de 9 de Junho de 1927 e do presente Regulamento;
Artº 2º : Têm direito ao descanso semanal de 24 horas seguidas, salvo os casos previstos neste Regulamento, todos os assalariados a que se refere o artº 1º do Decreto de 8 de Março de 1911.
Artº 3º: Não são abrangidos pelo artigo antecedente, os trabalhadores rurais, os pastores e tratadores de gado.
Artº 4º: O dia de descanso semanal será:
a) Às segundas-feiras para os sapateiros e barbeiros;
b) Às quartas-feiras para os estabelecimentos onde se façam transacções de carácter comercial;
c) Aos domingos para os pedreiros e carpinteiros.
Artº 5º: Nos dias de descanso semanal os estabelecimentos a que se refere a alínea b) do artº anterior encerrarão as suas portas.
& Único: Quando o encerramento dos estabelecimentos coincidir com os dias de mercados ou feiras, o encerramento far-se-á no dia imediato.
Artº 6º: Aos patrões e empregados que transgridam as disposições do presente Regulamento serão aplicadas as seguintes multas:
1) Pela primeira vez ---- 100$00
2) Pela segunda vez ---- 150$00
3) Pela terceira vez ----- 200$00
& Único: O produto das multas será assim dividido: 50% para o participante e o restante a favor do estabelecimento de beneficência da localidade onde se cometer a transgressão.
Artº 7º: As dúvidas que possam suscitar-se quanto à aplicação do presente Regulamento serão resolvidas pela Câmara Municipal.
NOTA: Como se vê pelo Regulamento, as classes mais pobres e sobre quem pesava o trabalho mais duro e mais mal pago (trabalhadores rurais, pastores e tratadores de gado) não tinham direito ao descanso semanal. Trabalhavam de sol a sol em condições duríssimas e nem assim, tanto os governos republicanos como os da Dictadura saída do 28 de Maio de 1926, lhes garantiam o mínimo direito a um dia de descanso semanal.
A jornada de 8 horas de trabalho nos campos só foi conquistada em 1962, após uma luta determinada, levada a cabo nos campos do Alentejo e Ribatejo.
Roubo de um chibato em Fevereiro de 1908
(Carta do Administrador do Concelho ao Delegado do Procurador Régio (12/2/1908)
"Cumpre-me levar ao conhecimento de Vª Exª que se veio queixar António da Graça Cigano, casado, lavrador, morador no Canto de Santo António d´esta villa, de que na noite de 10 para 11 do corrente lhe abriram com chave falsa a porta de um seu palheiro que está dentro de quintal murado e com portão, sito à Azinhaga da Fonte da Pipa, subúrbios d´esta mesma villa, roubando-lhe de lá um chibato branco de 3 annos, cujo valor reputa em cinco mil réis.
Que o portão do dito quintal foi encontrado fechado por elle queixoso, achando-se porem aberta a porta do palheiro onde estava o chibato, d ´onde se presume que o roubo foi feito por mais de uma pessoa passando-se o chibato por cima do muro. Que hontem pela manhã José Carita Caldeira, casado, lavrador, morador na Rua da Deveza, passando pela ruinha do Rossio, encontrou ali quatro patas de um chibato e dissera para Maria da Graça Guerra, casada, que occasião passava também: “ Tanta gente que compra patas de chibato... quem seria que deitou estas fora?” Que a mulher as apanhou e as levou para sua casa. Constando isso ao queixoso, mandou pedir as patas à mulher e reconheceu logo que eram as do chibato roubado, as quaes apresentou n´esta Administração e acompanham este mesmo officio.
Enquanto vou proceder as necessárias investigações, d´isto dou conhecimento a Vª Exª para que seja feito o competente exame no local do roubo e restos do chibato que acompanhou este meu officio.
O Administrador
(a) Paralta
Reforço policial na Semana Santa (1905)
O documento é de 1905 e retrata o fervor religioso por ocasião da Semana Santa, em Nisa. Um fervor religioso que, muitas vezes, extravasava o âmbito das celebrações e descambava em situações delicadas e pouco abonatórias do carácter solene de tais manifestações.
Temendo a repetição de actos verificados em anos anteriores - um deles ficou tristemente assinalado pela morte, por esmagamento, de uma mulher - em 19 de Abril de 1905, o presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Nisa, Subtil, expunha as suas preocupações ao Comandante da força do Regimento de Infantaria nº 22 (Portalegre) destacado para esta vila, ao mesmo tempo que lhe dava directrizes precisas sobre o desempenho da mesma.
Carta ao Commandante de Diligencia de Infantaria nº 22 d´esta villa
"Cumpre-me communicar a Vª Exª que a força militar do seu digno commando, que se encontra n´esta villa, foi por mim requisitada para policiar as procissões que aqui se realizam amanhã e no dia seguinte por 8 horas da noite, e que sahem da Egreja da Misericórdia, e não para fazer a guarda de honra às mesmas procissões.
Espero que Vª Exª se digne ordenar que a dita força seja postada na cauda das procissões afim de evitar atropellamentos durante o caminho, principalmente à entrada da Egreja, onde a multidão costuma entrar de tropel.
A mesma força militar vem tambem com o fim de policiar a Romaria de Nossa Senhora da Graça a 3 kilometros d´esta villa, no dia 24 do corrente, para onde deverá seguir às 8 horas da manhã.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

VIDAS: João Caixado - Ex-salsicheiro

"Não havia enchidos com a qualidade dos nossos"
João da Cruz Cebola Caixado, tem 77 anos, um terço dos quais dedicados à salsicharia tradicional. Foi alfaiate e merceeiro, mas os fracos proventos auferidos nestas actividades, levaram-no a enveredar pelo comércio de carnes frescas e de enchidos.
"Cessei a minha actividade há oito anos. Estive à frente de uma salsicharia durante vinte e cinco anos. Era um negócio "caseiro", familiar, como quase todos os deste ramo na vila de Nisa. Comprava os porcos, levava-os ao matadouro, ajudava a matá-los e depois era eu que os desmanchava, em casa. A minha mulher, ajudada por outra, a "enchideira", encarregavam-se de migar a carne e proceder ao enchimento das tripas. Os enchidos eram, depois, colocados, em varas, no fumeiro, para o processo de "cura", com lenha de azinho. Era assim que, em minha casa e em mais de uma dúzia de salsicharias de Nisa, se trabalhava."
João Caixado, recorda esses tempos de azáfama, com um brilho nos olhos e fala dos enchidos de Nisa com indisfarçado orgulho:
" Naquele tempo quase todas as pessoas tinham o seu bacorinho para engordar. A furda, no quintal, ou a pocilga, no chão (tapada) serviam para aproveitar as viandas, e a engorda do porco representava uma grande ajuda para os magros proventos das famílias."
Os salsicheiros adquiriam a maior parte desses suínos, avaliados e pagos "à arroba", que conduziam ao matadouro municipal onde eram abatidos.
"No meu comércio, havia duas "matanças" por semana, às quartas e sextas-feiras, dois ou três porcos, às vezes menos, conforme a época, a oferta e a procura".
Os enchidos tradicionais de Nisa, como o chouriço, a cacholeira, a linguiça, a moura, a morcela e a farinheira, tinham grande procura, consoante o tipo de consumidores e de "bolsas". A lavoura tinha, ainda, um grande peso na actividade económica de Nisa e os trabalhadores rurais aviavam as suas "fatadas" onde não faltava o bocadinho de conduto: os enchidos. 
Foi assim até à década de 70. Depois, ao progressivo abandono dos campos e à imposição de novas regras e restrições no abate e comércio de gado suíno e ovino, juntou-se a avançada idade de grande parte dos salsicheiros de Nisa, que se viram remetidos para uma situação "entre a espada e a parede".
Prosseguir a actividade significava vultuosos investimentos em instalações e equipamentos, projectos, processos burocráticos para os quais faltava paciência, informação e ajuda.
O sector atravessava uma grande indefinição. À entrada na CEE, seguiu-se o encerramento dos matadouros municipais, uma das medidas que, aos olhos de Cavaco Silva, nos transformava em "bons alunos" da realidade europeia. Tal decisão significou, a nível local e regional, um profundo golpe numa economia de subsistência: o matadouro municipal foi, directa e indirectamente, a base de sustento de muitas famílias.
João Caixado, seguiu o caminho de outros salsicheiros nisenses: fechou as portas e acabou com o negócio. Uma decisão que não foi fácil e que ainda hoje recorda com algum pesar.
"Começou a haver concorrência, vinda de fora. O abate de gado fazia-se nos matadouros industriais, com grandes armazéns frigoríficos e estes vendiam aos comerciantes as partes dos porco que lhes pediam. Por um lado, era mais fácil e vantajoso adquirir só o que nos interessava, pois os ossos e os toucinhos, às vezes, eram para mandar fora. Fui mantendo, enquanto pude, a actividade. O pior foi a imposição de construir ou remodelar as instalações e com a idade que tinha pensei que o melhor era encerrar o comércio."
Hoje, olha para trás com alguma nostalgia. Tem saudades do matadouro, dos clientes, do movimento da casa, da procura dos bons enchidos de Nisa e revela-nos as razões de serem tão apreciados.
"A qualidade começava, em primeiro lugar, nos animais. A carne dos porcos de montado, alimentados a lande e a bolota, tinham, logo, outro sabor. Depois, era a escolha e preparação das carnes, de acordo com o tipo de enchidos. Os chouriços e as linguiças, eram de uma qualidade, as cacholeiras e as mouras, de outra, e por aí fora. Aspecto importante eram os temperos. O pimento de horta, o saber migar e "adubar", uma arte, centenária, das mulheres-enchideiras de Nisa, o tempo da carne em repouso, para tomar os temperos, enfim, parecem coisas sem importância, mas são aquelas que davam valor, qualidade e fama, aos enchidos de Nisa. Havia lá havia enchidos como os nossos...". 
Mário Mendes - in "Jornal de Nisa" - 2003