quinta-feira, 30 de março de 2017

NISA: À Descoberta do Património do concelho (1)

Percursos Pedestres: um Guia por completar!
A edição de uma qualquer obra literária ou simples manuscrito, é sempre uma acção positiva e de louvar se a finalidade for preservar, oferecer ao presente e legar ao futuro algo com interesse para o concelho de Nisa ou seus habitantes.
Um bom exemplo é toda aquela vasta e valiosa colectânea literária exposta na Biblioteca Municipal, cerca de trinta títulos, quase todos eles de autoria de nisenses e que têm em comum, nos variados temas abordados, fruto de vivências, muito trabalho e experiência adquirida, a necessidade sentida de transmitir e partilhar o saber herdado.
Mas, também, nesta temática, há que ter cuidado, iniciada uma qualquer “caminhada” há que seguir em frente e terminá-la, retroceder ou parar pode não ser bom, inadequado, injusto até.
Uma edição verdadeiramente interessante e bem útil foi o “Guia de Percursos Pedestres” de Nisa, promovida pelo actual executivo camarário, vão quase cinco anos (2005).Mas, e não poucas vezes há sempre um “mas”, se nada há a opor no aspecto gráfico, já no conteúdo informativo nos parece haver falta de moderação, que vai sendo um vício por todo o lado, mas pior, bem pior, são as omissões ao quão de importante temos por ali, no espaço já contemplado pelos “Guias”, que nada ajudam o “turismo” que se vai invocando quase diariamente. Descuido? Outra razão? Ultrapassa-nos. Direitos de autor por certo não lhes seriam exigidos.
Não é correcto, por injusto, deixar o trabalho a meio, com as consequências negativas que daí advêm, divulgando uma fracção apenas do todo que é o concelho de Nisa. Cinco anos volvidos é tempo de completar a “caminhada”, promovendo a edição dos documentos ainda em falta, referenciando todo o valioso património ocultado.
Observe o leitor um qualquer mapa do concelho de Nisa e experimente traçar uma linha ligando o Percurso nº 1 (Trilhos de Jans – Amieira do Tejo) ao Percurso nº8 ( Trilhos do Moinho Branco – Montalvão).
Por certo vai constatar o seguinte: naquele espaço, a Norte, estão lá todos os “Percursos” editados (8), nada havendo que contemplar a Sul, espaço mais amplo, divulgando o valioso património existente e visível por aí.
As freguesias do Espírito Santo, Nossa Senhora da Graça, Arez, S. Matias, Tolosa e Alpalhão, têm um acervo patrimonial e paisagístico de grande importância, onde se vêem em quantidade, igrejas e ermidas, passadeiras nos ribeiros e também moinhos, pontes e fontes, furdões e barragens, antas, menires, sepulturas nas rochas e vias muito, muito antigas, de antes da nacionalidade portuguesa.
Vias por onde transitaram e transitam ainda tantos povos nossos parentes, fossem eles lusitanos, romanos ou sarracenos, peregrinos em romagem ou simples caminhantes de agora.
Bem, depois há a história dos sítios, das vilas e das aldeias, que não consta lá e é riquíssima, como é até mesmo aquelas que lá constam, nos Percursos já editados.
Mãos à obra, termine-se a “caminhada” iniciada, dando a todas as freguesias do concelho, sobre a forma de “Percursos”, a importância patrimonial e histórica que, efectivamente, têm.
Mais do que uma necessidade é um acto de justiça.
João Francisco Lopes in "O Distrito de Portalegre" (2009)

sábado, 7 de janeiro de 2017

MEMÓRIA HISTÓRICA: A crise de trabalho no concelho de Nisa em 1913

Menos de três anos após a implantação da República em Portugal, as precárias condições de vida da população portuguesa, mantinham-se e o novo regime político enfrentava uma grande convulsão social, motivada, principalmente, pela falta de trabalho.
No concelho de Nisa, a situação não era diferente da que vigorava no país. Em 1913, a crise geral, agravada com o mau ano agrícola, motivou uma exposição (na altura designada por Representação) ao Governo da República, feita através do Governo Civil. É esse documento que aqui apresentamos e deixamos à consideração dos nossos leitores/visitantes do blog.
Representação da C.A. do Município de Niza ao Governo da República (Agosto de 1913)
A Comissão Administrativa do Município de Niza, vem perante Vossa Excelência representar pedindo para que consiga do Governo da Republica a imediata abertura de trabalhos públicos que, de algum modo conjurar possam a angustiosa crise em que o operariado d´este concelho se debate.
O terrível anno que vai correndo, tem sido sob o ponto de vista agrícola, verdadeiramente calamitoso. Quando a poeira do tempo tiver embranquecido as cabeças dos rapazes d´hoje, hão de eles recordar este fatídico 1913, como um pesadelo que lhes vincou na alma uma inolvidável amargura.
As searas apresentavam-se magnificas e assim se conservavam até que, os últimos dias de Maio, um fungo puccinia rubigo-vera as devastou.

Havia ainda a cultura do linho. Uma ultima  esperança bruxeliava! Talvez, talvez que uma pequena compensação trouxesse... também falhou! Todos os sonhos de prosperidade ruíram; e os agricultores sem dinheiro, perdida também a energia reduzem ao mínimo o serviço que é costume efectuar. D´ahí a crise de trablaho agravada confrangedoramente pela carestia de vida.
E a semente do sindicalismo que o inverno passado foi lançada nos espíritos rudes dos trabalhadores rurares, la vae germinando, mercê d´esta circunstancia que lhe é imensamente favorável: a miséria.
A Comissão Administrativa da minha presidência comprehende muito bem a impossibilidade de o Estado remediar por completo esta situação. Mas pode atenual-a. E uma das formas de o conseguir, consistirá em abrir trabalhos públicos.
No prosseguimento da construção da estrada do Tejo a Amieira, encontraria muitos braços emprego para a sua actividade, alem de assim, se efectuar obra de incontestável utilidade publica.
Nas mãos de Vossa Excelência, depõe a Comissão Administrativa do Município de Niza, esta representação, na antecipada certeza de que não encontraria quem melhor do que Vossa Excelência faça triumphar a obra da Justiça que n´ela se reclama.
Niza, 21 de Agosto de 1913
O Presidente da Comissão
António Maria de Mattos Cardoso
Nota: Ano de perseguição ao movimento operário
"1913, ano do I Governo de Afonso Costa, alcunhado pelos trabalhadores de “racha-sindicalistas”, foi um ano de perseguições ao movimento operário, como nunca tinha acontecido desde a proclamação da República, em 1910. Em Fevereiro de 1913 estavam presos 110 trabalhadores rurais. Dezenas de sindicatos foram encerrados e mais de uma centena de sindicalistas foram encarcerados no Forte da Graça, em Elvas."
Helena Pato in "Notícias de Almeirim"
Desenho de Cipriano Dourado (1921-1981)

terça-feira, 8 de novembro de 2016

MEMÓRIA: Petição à Câmara de Nisa em 1885

Dos moradores do Monte Cimeiro e do Pé da Serra
Usando da faculdade que a lei conferia, os moradores das aldeias ou povoações mais pequenas, faziam regularmente petições às entidades públicas, reivindicando a resolução de problemas. O arranjo das vias de comunicação é reivindicado nesta petição apresentada à Camara de Nisa em 1885 e que transcrevemos respeitando a ortografia da época:
" Os abaixo assignados moradores no Monte Cimeiro e Pé da Serra, freguezia de S. Simão d´este concelho, usando de um direito que a lei lhes confere, veem hoje representar a V. Exªs sobre a necessidade inaddiavel de se attender de prompto á reparação, na parte indispensavel, de um dos caminhos publicos que ligam aquellas povoações ruraes com a séde do mesmo concelho. É incontestavel que muito, relativamente, se tem feito para que a viação municipal possa satisfazer ao que o commercio, a industria e em summa as forças vivas do municipio, no seu progresso successivo, vão exigindo; mas não é menos incontestavel que não ha presentemente no concelho povoação alguma que esteja em peiores condições de viação do que o monte, aliás importante, do Pé da Serra, porque infelizmente até hoje nenhum beneficio tem recebido n´esse sentido. Bastará dizer que, para uma carreta chegar a este monte, tem que ir alcançar o Azinhal, suppondo que Niza é o ponto de partida, percorrendo assim uma distancia dupla da que teria de percorrer se seguisse pelo caminho chamado do Carqueijal em direcção ao Porto das Carretas.
Acresce ainda que, para a propria viação a pé ou a cavallo, o caminho ordinariamente seguido, o da Ponte em direcção a Portella dos Caldeireiros, está hoje já quasi intransitavel. Para remediar estes males, que são grandes, pois affectam interesses legítimos, os abaixo assignados veem pedir á Exma Camara Municipal a immediata reparação do caminho do Carqueijal, na parte comprehendida entre a Cancella da tapada dos herdeiros de José da Cruz Cebola e o Porto das Carretas, distancia que é pequena, e em seguida a reparação do dito porto, de forma que o seu pavimento seja de calçada e colloquem n´elle as competentes passadeiras.
D´esta arte com uma pequena despeza, o beneficio para o monte do Pé da Serra é tão grande que só em occasiões de grandes cheias será interrompida a viação pelo dito porto, convindo notar que esse beneficio se estende ainda aos habitantes do monte da Salavessa, visto que elles fazem escala pelo Pé da Serra.
Attendendo á justiça que assiste aos abaixo assignados e a que a reparação pedida importa apenas uma pequena despeza, que não se torna sensível na verba aprovvada para tal fim no respectivo orçamento, esperam, e attendendo a que aproveita ainda ao povo da Vinagra, onde residem alguns signatários.
Pedem a V. Exas deferimento."
Á frente dos signatários vinha o nome de João António da Silva, pároco de S. Simão. Nos mais de 30 nomes que integram a petição, muitos dos apelidos são-nos familiares (Corga, Pires, Anastácio), por serem comuns em Nisa, o que torna credível a ideia de que a formação do monte do Pé da Serra, se processou após a destruição de Nisa-a-Velha, sendo os povos de Nisa e daquela localidade, apenas um e o mesmo povo.

in "Jornal de Nisa" - Nº 36 - 23 de Junho de 1999

terça-feira, 1 de novembro de 2016

NISA: Ecos da Nossa História (1)

O descanso semanal em 1930
Em 17 de Maio de 1930, em plena Dictadura Nacional, a Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Nisa, presidida pelo tenente António Falcão e tendo como vogais António Joaquim Fraústo e João da Cruz Carita (Canhoto) aprovava o Regulamento do Descanso Semanal, com as seguintes disposições:
Artº 1º : O descanso semanal no concelho de Nisa será observado nos termos do Dec.de 8 de Março de 1911, nº 5516 de 4 de Março de 1919, 10782 de 20 de Maio de 1925, 13788 de 9 de Junho de 1927 e do presente Regulamento;
Artº 2º : Têm direito ao descanso semanal de 24 horas seguidas, salvo os casos previstos neste Regulamento, todos os assalariados a que se refere o artº 1º do Decreto de 8 de Março de 1911.
Artº 3º: Não são abrangidos pelo artigo antecedente, os trabalhadores rurais, os pastores e tratadores de gado.
Artº 4º: O dia de descanso semanal será:
a) Às segundas-feiras para os sapateiros e barbeiros;
b) Às quartas-feiras para os estabelecimentos onde se façam transacções de carácter comercial;
c) Aos domingos para os pedreiros e carpinteiros.
Artº 5º: Nos dias de descanso semanal os estabelecimentos a que se refere a alínea b) do artº anterior encerrarão as suas portas.
& Único: Quando o encerramento dos estabelecimentos coincidir com os dias de mercados ou feiras, o encerramento far-se-á no dia imediato.
Artº 6º: Aos patrões e empregados que transgridam as disposições do presente Regulamento serão aplicadas as seguintes multas:
1) Pela primeira vez ---- 100$00
2) Pela segunda vez ---- 150$00
3) Pela terceira vez ----- 200$00
& Único: O produto das multas será assim dividido: 50% para o participante e o restante a favor do estabelecimento de beneficência da localidade onde se cometer a transgressão.
Artº 7º: As dúvidas que possam suscitar-se quanto à aplicação do presente Regulamento serão resolvidas pela Câmara Municipal.
NOTA: Como se vê pelo Regulamento, as classes mais pobres e sobre quem pesava o trabalho mais duro e mais mal pago (trabalhadores rurais, pastores e tratadores de gado) não tinham direito ao descanso semanal. Trabalhavam de sol a sol em condições duríssimas e nem assim, tanto os governos republicanos como os da Dictadura saída do 28 de Maio de 1926, lhes garantiam o mínimo direito a um dia de descanso semanal.
A jornada de 8 horas de trabalho nos campos só foi conquistada em 1962, após uma luta determinada, levada a cabo nos campos do Alentejo e Ribatejo.
Roubo de um chibato em Fevereiro de 1908
(Carta do Administrador do Concelho ao Delegado do Procurador Régio (12/2/1908)
"Cumpre-me levar ao conhecimento de Vª Exª que se veio queixar António da Graça Cigano, casado, lavrador, morador no Canto de Santo António d´esta villa, de que na noite de 10 para 11 do corrente lhe abriram com chave falsa a porta de um seu palheiro que está dentro de quintal murado e com portão, sito à Azinhaga da Fonte da Pipa, subúrbios d´esta mesma villa, roubando-lhe de lá um chibato branco de 3 annos, cujo valor reputa em cinco mil réis.
Que o portão do dito quintal foi encontrado fechado por elle queixoso, achando-se porem aberta a porta do palheiro onde estava o chibato, d ´onde se presume que o roubo foi feito por mais de uma pessoa passando-se o chibato por cima do muro. Que hontem pela manhã José Carita Caldeira, casado, lavrador, morador na Rua da Deveza, passando pela ruinha do Rossio, encontrou ali quatro patas de um chibato e dissera para Maria da Graça Guerra, casada, que occasião passava também: “ Tanta gente que compra patas de chibato... quem seria que deitou estas fora?” Que a mulher as apanhou e as levou para sua casa. Constando isso ao queixoso, mandou pedir as patas à mulher e reconheceu logo que eram as do chibato roubado, as quaes apresentou n´esta Administração e acompanham este mesmo officio.
Enquanto vou proceder as necessárias investigações, d´isto dou conhecimento a Vª Exª para que seja feito o competente exame no local do roubo e restos do chibato que acompanhou este meu officio.
O Administrador
(a) Paralta
Reforço policial na Semana Santa (1905)
O documento é de 1905 e retrata o fervor religioso por ocasião da Semana Santa, em Nisa. Um fervor religioso que, muitas vezes, extravasava o âmbito das celebrações e descambava em situações delicadas e pouco abonatórias do carácter solene de tais manifestações.
Temendo a repetição de actos verificados em anos anteriores - um deles ficou tristemente assinalado pela morte, por esmagamento, de uma mulher - em 19 de Abril de 1905, o presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Nisa, Subtil, expunha as suas preocupações ao Comandante da força do Regimento de Infantaria nº 22 (Portalegre) destacado para esta vila, ao mesmo tempo que lhe dava directrizes precisas sobre o desempenho da mesma.
Carta ao Commandante de Diligencia de Infantaria nº 22 d´esta villa
"Cumpre-me communicar a Vª Exª que a força militar do seu digno commando, que se encontra n´esta villa, foi por mim requisitada para policiar as procissões que aqui se realizam amanhã e no dia seguinte por 8 horas da noite, e que sahem da Egreja da Misericórdia, e não para fazer a guarda de honra às mesmas procissões.
Espero que Vª Exª se digne ordenar que a dita força seja postada na cauda das procissões afim de evitar atropellamentos durante o caminho, principalmente à entrada da Egreja, onde a multidão costuma entrar de tropel.
A mesma força militar vem tambem com o fim de policiar a Romaria de Nossa Senhora da Graça a 3 kilometros d´esta villa, no dia 24 do corrente, para onde deverá seguir às 8 horas da manhã.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

VIDAS: João Caixado - Ex-salsicheiro

"Não havia enchidos com a qualidade dos nossos"
João da Cruz Cebola Caixado, tem 77 anos, um terço dos quais dedicados à salsicharia tradicional. Foi alfaiate e merceeiro, mas os fracos proventos auferidos nestas actividades, levaram-no a enveredar pelo comércio de carnes frescas e de enchidos.
"Cessei a minha actividade há oito anos. Estive à frente de uma salsicharia durante vinte e cinco anos. Era um negócio "caseiro", familiar, como quase todos os deste ramo na vila de Nisa. Comprava os porcos, levava-os ao matadouro, ajudava a matá-los e depois era eu que os desmanchava, em casa. A minha mulher, ajudada por outra, a "enchideira", encarregavam-se de migar a carne e proceder ao enchimento das tripas. Os enchidos eram, depois, colocados, em varas, no fumeiro, para o processo de "cura", com lenha de azinho. Era assim que, em minha casa e em mais de uma dúzia de salsicharias de Nisa, se trabalhava."
João Caixado, recorda esses tempos de azáfama, com um brilho nos olhos e fala dos enchidos de Nisa com indisfarçado orgulho:
" Naquele tempo quase todas as pessoas tinham o seu bacorinho para engordar. A furda, no quintal, ou a pocilga, no chão (tapada) serviam para aproveitar as viandas, e a engorda do porco representava uma grande ajuda para os magros proventos das famílias."
Os salsicheiros adquiriam a maior parte desses suínos, avaliados e pagos "à arroba", que conduziam ao matadouro municipal onde eram abatidos.
"No meu comércio, havia duas "matanças" por semana, às quartas e sextas-feiras, dois ou três porcos, às vezes menos, conforme a época, a oferta e a procura".
Os enchidos tradicionais de Nisa, como o chouriço, a cacholeira, a linguiça, a moura, a morcela e a farinheira, tinham grande procura, consoante o tipo de consumidores e de "bolsas". A lavoura tinha, ainda, um grande peso na actividade económica de Nisa e os trabalhadores rurais aviavam as suas "fatadas" onde não faltava o bocadinho de conduto: os enchidos. 
Foi assim até à década de 70. Depois, ao progressivo abandono dos campos e à imposição de novas regras e restrições no abate e comércio de gado suíno e ovino, juntou-se a avançada idade de grande parte dos salsicheiros de Nisa, que se viram remetidos para uma situação "entre a espada e a parede".
Prosseguir a actividade significava vultuosos investimentos em instalações e equipamentos, projectos, processos burocráticos para os quais faltava paciência, informação e ajuda.
O sector atravessava uma grande indefinição. À entrada na CEE, seguiu-se o encerramento dos matadouros municipais, uma das medidas que, aos olhos de Cavaco Silva, nos transformava em "bons alunos" da realidade europeia. Tal decisão significou, a nível local e regional, um profundo golpe numa economia de subsistência: o matadouro municipal foi, directa e indirectamente, a base de sustento de muitas famílias.
João Caixado, seguiu o caminho de outros salsicheiros nisenses: fechou as portas e acabou com o negócio. Uma decisão que não foi fácil e que ainda hoje recorda com algum pesar.
"Começou a haver concorrência, vinda de fora. O abate de gado fazia-se nos matadouros industriais, com grandes armazéns frigoríficos e estes vendiam aos comerciantes as partes dos porco que lhes pediam. Por um lado, era mais fácil e vantajoso adquirir só o que nos interessava, pois os ossos e os toucinhos, às vezes, eram para mandar fora. Fui mantendo, enquanto pude, a actividade. O pior foi a imposição de construir ou remodelar as instalações e com a idade que tinha pensei que o melhor era encerrar o comércio."
Hoje, olha para trás com alguma nostalgia. Tem saudades do matadouro, dos clientes, do movimento da casa, da procura dos bons enchidos de Nisa e revela-nos as razões de serem tão apreciados.
"A qualidade começava, em primeiro lugar, nos animais. A carne dos porcos de montado, alimentados a lande e a bolota, tinham, logo, outro sabor. Depois, era a escolha e preparação das carnes, de acordo com o tipo de enchidos. Os chouriços e as linguiças, eram de uma qualidade, as cacholeiras e as mouras, de outra, e por aí fora. Aspecto importante eram os temperos. O pimento de horta, o saber migar e "adubar", uma arte, centenária, das mulheres-enchideiras de Nisa, o tempo da carne em repouso, para tomar os temperos, enfim, parecem coisas sem importância, mas são aquelas que davam valor, qualidade e fama, aos enchidos de Nisa. Havia lá havia enchidos como os nossos...". 
Mário Mendes - in "Jornal de Nisa" - 2003

sábado, 1 de outubro de 2016

NISA: Poetas Populares

Vou à Senhora da Graça
Antiga vila de Nisa
É recordação de quem passa
Estás no coração
Nossa Senhora da Graça

Nossa Senhora da Graça
Que estás à nossa beira
Estás no coração de todos
Nossa bela padroeira

Nossa bela padroeira
Que está no cabecinho
Nem que lá esteja calor
Sempre lá corre o ventinho

Sempre lá corre o ventinho
E nós com muita alegria
No dia 4 de Abril
Vamos todos à Romaria

Vamos todos à Romaria
É dia de procissão
Haja festa e foguetes
E lá vamos com devoção

Senhora tu és velhinha
Como tu não há igual
Estás no coração de todos
Neste velho Portugal
Maria da Graça Cortiçada

MEMÓRIA: Dr. Francisco Miguéns, nisense ilustre

O doutor Francisco da Graça Miguéns, médico notável e bondoso, nasceu em Nisa, a 2 de Abril de 1854, filho de Brás Miguéns Beato e de Maria da Cruz. Exerceu durante 34 anos com grande amor, sentido profissional e exemplar dedicação à sua terra e às populações do concelho, o cargo de médico municipal.
Frequentou o Liceu de Santarém onde se revelou como um aluno brilhante. Formou-se em Medicina e Filosofia na Universidade de Coimbra, tendo conquistado diversos prémios e distinções. Após a obtenção do seu diploma universitário, foi convidado pelo Corpo Docente da Universidade para prosseguir como professor de Medicina naquele prestigiado estabelecimento de ensino, convite que declinou, tendo preferido voltar à sua terra, sendo nomeado médico municipal a 11 de Agosto de 1880, tomando posse do cargo nesse mesmo dia.
Desde Agosto de 1880 e durante 34 anos, o doutor Francisco da Graça Miguéns, trabalhou com desvelo, bondade e abnegação, mostrando sempre a mesma disponibilidade para tratar dos seus conterrâneos e acudindo a todas as situações para que fosse solicitado, tanto de dia como de noite.
Tendo em conta os serviços relevantes prestados ao concelho, a Câmara Municipal decidiu, em 24 de Julho de 1919, atribuir o nome do ilustre médico e benemérito à antiga Rua Direita e colocar o seu retrato no salão nobre dos Paços do Concelho, de onde foi retirado por expressa solicitação do próprio clínico.
Vítima de doença, faleceu a 10 de Outubro de 1933.
Nisa- Rua Dr. Francisco Miguéns (antiga Rua Direita)
Foi homenageado a 29 de Maio de 1945 com a inauguração de um busto, belo e simples, no Jardim Municipal de Nisa, que fica a recordar às gerações de nisenses, a figura humilde e bondosa do Dr. Francisco Miguéns.
Dr. Francisco da Graça Miguéns
Viveu a sua vida sossegada,
Entregue ao bem e ao culto da ciência,
E quando a morte veio - a consciência
Tinha a pureza e a luz duma alvorada.

Sua alma foi, na terra, a enamorada
De tudo o que há de belo na existência,
Do Ideal atinge a região imaculada.

E sempre em torno dele, suavemente,
Um murmúrio de prece esvoaçou:
- Era o coro de bênçãos, puro e ardente,

De tantas criancinhas que afagou,
De tanto pobrezinho e tanto doente
Que o seu coração de oiro consolou.
Dias Loução (12/10/1933)